Colégio Santa Cruz – Iquem estudou aqui ou no Santa Maria?

Os efeitos da Segunda Guerra se espalharam para muito além das trincheiras, dos alvos, das perdas: mesmo que estivesse seguro em um país distante da morte e do terror, nenhum homem estaria completamente isento, livre. Nenhuma alma poderia estar impermeável à dor da humanidade, principalmente se essa alma fosse jovem, corajosa, cheia de sonhos. Enquanto a violência abalava e mutilava nações, homens e ideais, alguns sabiam que toda essa dor poderia ajudar a preparar uma sociedade mais justa num mundo renovado. Era necessário acreditar na aventura do homem, na reconstrução de sua história. Em novembro de 1944, o jovem Padre Lionel Corbeil, bacharel em Filosofia, Teologia e Ciências Sociais, atravessou de trem a costa leste dos Estados Unidos. Um considerável percurso de Montreal a Miami… mais cinco dias de avião de Miami ao Rio de Janeiro. Isso tudo não era muito para o tamanho da aventura que iniciava. Era quase nada para quem sonha. Quando se tem 25 anos, como Lionel, o futuro é muito tempo.
São Paulo, 1944
Durante séculos a América Latina assistiu à chegada de estrangeiros: durante tanto tempo ela foi o “Eldorado”, o “Novo Mundo”, a “Terra à Vista” daqueles que esperavam ampliar os próprios horizontes. E durante tanto tempo foi colonizada, devassada, catequizada, que os tardios pioneiros da Congregação de Santa Cruz poderiam ter passado despercebidos aos olhos submissos dessa história cultural. Mas esses anchietas modernos estavam destinados a uma tarefa humanitária e humanizadora. Pastoral universitária, pastoral operária, pastoral paroquial… Por que não fundar uma escola?
São Paulo, 1952: o sonho do Padre Corbeil
“…Um colégio moderno, com linhas arquitetônicas simples, arejadas, no meio de belos jardins… uma comunidade escolar feliz, comunicante, ativa… uma escola que seria a segunda casa dos meninos… uma escola que respeitasse a imaginação, a inteligência, os dons criadores, que instigasse o espírito da pesquisa e a liberdade dos jovens… uma escola que permitisse ao professor a satisfação de realizar-se profissionalmente.”
Mas não havia casa, nem terreno, nem dinheiro.
O sonho estava destinado a intervir na realidade, porque o inconformismo é característica do verdadeiro educador. Nasce da insatisfação. Não de uma insatisfação ávida e vazia, que ignora a riqueza que possui para correr em busca da que lhe foge; mas a insatisfação salutar daquele para quem o passado perderia seu significado, se não fosse a garantia do futuro. O futuro é um apelo.
Numa casa emprestada pela Cúria Metropolitana teve início o Colégio Santa Cruz. Duas classes de 1ª série ginasial, sessenta alunos. Era pouco frente às dimensões do imaginado; mas o futuro ainda haveria de ser muito tempo.
Periferia de São Paulo, 1957
Nessa época, o Alto de Pinheiros era recortado por estradas de terra; vacas pastavam eventualmente diante das salas de aula. O amplo terreno em que foram construídos os primeiros pavilhões do Colégio Santa Cruz era pantanoso, isolado, distante. Mas algumas coisas o tempo transforma sem deixar envelhecer: quando nasceu, o Pátio do Colégio ainda não era o coração paulistano, ou a semente da cidade… Era apenas uma escola de jesuítas, no planalto de Piratininga.
Colégio Santa Cruz, 1966
No gabinete do Padre Charbonneau alinham-se livros, ideias, palavras: “Agir é antes de tudo pensar”. Padre Charbonneau era um pensador, daí suas ações serem eternas, fixadas em palavras que o tempo não desmancha e que podem ensinar indefinidamente. Seu texto vigoroso, inquieto, afirmativo foi um dos alicerces filosóficos da educação inovadora que se processava havia já onze anos.
“Compete-nos afirmar nossa fé no trabalho da educação. Somos educadores, e nossa vida inteira se consagra a esta tarefa: construir homens.”
“A juventude mora dentro de nós. Não somos nós que estamos no meio dela, como se tivéssemos saltado de paraquedas de uma outra geração com a missão de colonizá-la ou de subjugá-la. É ela que está em nós e nos atropela, e nos empurra para a frente.”
“Cada ano uma nova colheita sai de nossas mãos e diante dela mil interrogações nos assaltam e então nos perguntamos o que fizemos dessas crianças que se tornaram homens recebendo de nós o seu alento, pois o educador, como o Criador, é aquele que insufla o espírito.”
“Cada ano se ergue diante de nós uma fatia de geração sobre a qual vamos imprimir nossa marca, fazendo-a crescer de acordo com os imperativos que nos conduzem. Cada jovem nos surpreende, cada jovem recebemos com indizível respeito, pois cada um é a humanidade inteira.”
“Somos inquietos. Porque os jovens nos empurram no caminho da existência e nos forçam todos os dias a nos fazermos cem perguntas insolúveis; porque exigem de nós respostas; porque todas as manhãs, na luz do dia que desponta, erguem à nossa frente o impenetrável mistério do homem; porque nos perguntam como tornar-se homem e por que tornar-se cristão… Eles nos tiram o repouso do espírito e não nos deixam parar.”
1970, a crítica
Ninguém tinha mais dúvidas. O projeto de excelência era uma realidade. Desde a fundação, o Colégio Santa Cruz sempre se preocupou com o aprimoramento de seu ensino: a seleção rigorosa de alunos, a busca constante pelos melhores métodos psicopedagógicos, educadores preparados nos diversos ramos do conhecimento, um corpo docente cuidadosamente escolhido, a abertura de classes experimentais, a sólida formação geral dos estudantes, o senso da liberdade responsável, o espírito comunitário, a preparação para a universidade
Mas essa qualidade gerava equívocos. O sistema de excelência intelectual limitava a seleção dos alunos a uma classe social privilegiada e, por isso, escolarmente mais bem preparada. Além dessa exigência, a estrutura e os objetivos faziam do Colégio uma escola dispendiosa e que, na prática, servia a uma classe social elevada. Os padres do Santa Cruz tinham consciência da obrigação de educar e evangelizar todos e, em consequência, também os mais privilegiados; estavam, entretanto, plenamente conscientes do mal que existe em educar e evangelizar apenas estes.
Outro problema que se afigurava era a necessidade de impedir que a orientação espiritual e o ensino religioso fossem negligenciados. A duplicidade de função dos padres dificultava sua indispensável dedicação evangélica.
1974, a democratização, a desclericalização
O Colégio amplia significativamente sua dimensão educadora. Por mais de vinte anos foi exclusivamente masculino, e sua organização pedagógica envolvia apenas as quatro séries finais do Curso de 1º Grau, além do Curso Colegial. Nesse ano, as meninas começam a participar desse universo educacional, que agora se abre também para as crianças, com a formação do Curso Primário (séries iniciais do Primeiro Grau).
Início do Curso Supletivo noturno: ensino de qualidade amplamente subsidiado por recursos do próprio Colégio. Se as contradições sociais do país e a carência formativa do trabalhador parecem longe de serem abrandadas por iniciativas oficiais, o Santa Cruz reafirma o sonho de seus pioneiros e abre suas portas, ilumina suas salas e organiza um projeto especialmente voltado aos desfavorecidos.
Desclericalizar o Colégio foi uma opção da Congregação. O abandono progressivo dos cargos administrativos e de direção ainda assumidos pelos padres e a consequente transferência aos educadores leigos significaria concentrar a dedicação dos padres nas atividades externas de evangelização. Ampliar a ação pastoral, para além dos limites da educação, sem abdicar dela.
1987, a perda
Padre Charbonneau morreu em 1987. Sua biblioteca está no mesmo lugar. Seus livros estão alinhados; milhares de citações, referências, pensamentos estão rigorosamente arquivados. Tudo parece repousar, à revelia do espírito perturbador de seu autor. Mas, verdadeiramente, sua literatura pulsa, contestando o tempo, criando o amanhã, alentando as dúvidas, apontando sabedoria e estimulando o Colégio Santa Cruz nessa tarefa de fazer crescer o homem e conduzi-lo à liberdade.
1993, nova direção
Padre Corbeil transfere a responsabilidade por seu legado ao professor Luiz Eduardo e sua equipe de educadores, completando o processo de desclericalização do Colégio.
2000, educação infantil
O Colégio amplia o projeto educacional para as crianças e cria o curso de Educação Infantil.
2001, nova perda
Quase cinquenta anos depois de fundado seu sonho de Colégio, Padre Corbeil morre, afastando-se inexoravelmente de sua obra. Esse longo fio de tempo que liga os homens, cada um passando ao outro sua luz, sua experiência, seu lugar, é a matéria-prima da vida, renascer contínuo. Nos últimos anos, Padre Lionel Corbeil pôde contemplar seu passado, que um dia foi um futuro cheio de indagações. Aos que ficam, cumpre reiniciar a busca incessante de respostas a novos problemas que um novo futuro multiplica.

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