ExSanta entrevista Heitor Lotti, violinista, ex-aluno da turma de 1989.

Vanessa Pasquini De Rose Ghilardi (ex-santa) – Heitor, conte-nos um pouco, resumidamente, de sua carreira como músico. 
Heitor Lotti – turma de 1989 – Descobri a musica com meu pai, ainda bem pequenininho. Ele gostava de ouvir música clássica em casa, e me contava de um irmão dele já falecido na época, que fora violinista. Meu pai era o caçula de 13 irmaos (e esse especificamente era de todos o mais velho). Quando meu pai ainda era criança, mais ou menos aos 6 anos de idade, esse irmão sempre lhe tocava uma peça cigana chamada ” O Canarinho”. Convenci-o, então, a me levar para aprender com o seguinte argumento: “Quando eu aprender toco o Canarinho prá você”.
Venci!
Comecei a estudar violino razoavelmente cedo, aos 7 anos, com um professor japonês. Eu era muito irrequieto, muito desastrado e bagunceiro, entao não levava a musica com seriedade. Eu preferia jogar bola! Pior… preferia ser o goleiro porque não tinha medo da bola. Mas como sempre fui franzino acabava machucado com frequência. Até os 13 anos de idade estive engessado por 9 vezes! Diante desse quadro era de se esperar que o violino ficasse em segundo ou terceiro planos, afinal, além da bola eu ainda tinha o tae-kwon-do, que por sua vez também me presenteou com algumas visitas a sala de raios-x.
Minha paixão pela música só despertou realmente aos 15-16 anos, quando descobri no violino uma coisa mágica que eu queria dominar ate o limite que me fosse possivel. Por coincidência foi na mesma época do ingresso no Santa Cruz.
Por esse tempo meu professor percebeu que eu poderia ir longe nessa carreira, e sugeriu ao meu pai que averiguasse a possibilidade de me enviar ao exterior. Segundo ele a melhor escola violinistica do mundo era na extinta URSS, no Conservatorio de Moscou Tchaikovsky. Três anos de insistência lhe custaram conseguir para mim a oportunidade de ir para lá. Eu concluia o 3o. colegial no Santa Cruz, e prestava o vestibular para viver um de meus maiores dilemas como ser humano: prestei Biologia na UNESP, medicina na Unicamp, música na USP e fui aprovado nos 3. Seria necessário abrir mao de algo… 
A ambição de conhecer a URSS suplantou o sonho de ser médico, e uma vez aprovado em 1o. lugar na USP (na minha carreira), optei por fechar meus livros de biologia! Em agosto do ano seguinte (1990) eu embarcava para uma das minhas maiores aventuras – com passagem só de ida para Moscou e apenas 200 dólares no bolso, sem saber falar russo, e sem saber sequer onde eu iria dormir, deixei minha casa e amigos.
Foram 10 anos fora do Brasil. É claro que todos os anos eu ia e vinha, sempre me apresentando em concertos solo pelo estado de São Paulo. Juntei um pé de meia de tal forma que nunca precisei pedir um tostão aos meus pais. Essa provisão possibilitou concluir meus estudos, me manter, comprar as passagens de avião… Era uma vida de muita renúncia, é verdade, mas valeu a economia. Consegui também 2 anos de bolsa pela fundação Vitae, mas não fosse pela perseveranca em não gastar um centavo desnecessariamente não teria conseguido.
Retornei ao Brasil no ano 2000 no auge da forma, e fui aprovado no teste para compor o elenco da OSESP. Desde então sou titular. 
 
Vanessa Pasquini De Rose Ghilardi (ex-santa)- Como você vê a evolução do mercado de  música erudita no Brasil nos últimos 10 anos?
Heitor Lotti – turma de 1989 – Esse mercado cresceu quando falamos de Sao Paulo, Rio de Janeiro e outras capitais. Mas ainda vivemos num deserto. Fora dos grandes centros raras são as cidades onde temos professores capacitados para ensinar. É preciso dizer que a música, como PROFISSÃO, e bastante ingrata. Sem uma base técnica sólida não se chega absolutamente a lugar nenhum; por essa razão somos um país que não explora seu potencial artístico. Milhares de talentos são perdidos nas pequenas cidades, pois aqueles que nasceram com esse dom não têm oportunidade nem sequer de serem apresentados a um instrumento musical, e quando têm, são pessimamente orientados.
 
Vanessa Pasquini De Rose Ghilardi (ex-santa) – Dê exemplos. A profissão lhe dá segurança? E quanto aos salários?
 
Heitor Lotti – turma de 1989 – O músico erudito não pode se considerar um profissional cujo futuro seja seguro e garantido. Bons salários só existem nas grandes orquestras do país, e ainda assim contando-se nos dedos. Isso reduz drasticamente as cidades onde é possivel exercer sua profissão com algum retorno financeiro. Eu, por exemplo, não gosto da vida em Sao Paulo. Trânsito demais, gente demais, stress demais, inseguranca, criminalidade… no entanto a OSESP está estabelecida aqui. É aqui que tenho que viver, goste ou não. Já dentistas, psicólogos, arquitetos podem se estabelecer em qualquer lugar, e encontrar campo de trabalho com remuneração mais justa.
 
Vanessa Pasquini De Rose Ghilardi (ex-santa) – Qual a rotina de um músico da Sala São Paulo? Do que você mais gosta em sua profissão?
Heitor Lotti – turma de 1989 – Temos um programa diferente por semana durante toda a temporada independente de feriados ou dias santos. É bastante trabalho! Funcionamos em horário integral de segunda a quinta preparando o repertório, e religiosamente nos apresentamos todas as quintas, sextas e sabados. Com frequência temos concertos a preços populares também aos domingos pela manhã.
Os horários de ensaios podem variar dependendo da dificuldade de cada programa, isto é: há programas que dispensam o ensaio da segunda-feira. Mas isso não quer dizer que a vida seja mais facil para nós, pois para manter a excelência artística é necessário se manter em constante aperfeiçoamento. Música não é como andar de bicicleta: se você deixa de praticar você simplesmente esquece! 
Eu gosto especialmente das tournees. Além de conhecermos lugares diferentes e mudarmos de ares, vale muito a pena ver o quão longe a OSESP chegou. Tocamos com ótima aceitação em salas sempre lotadas! Na Alemanha, por exemplo, tivemos um concerto onde fomos ovacionados por 10 minutos, e não estou exagerando. São em ocasiões assim que posso ver a OSESP como um lírio no deserto, literalmente.
 
Vanessa Pasquini De Rose Ghilardi (ex-santa) –  Qual a importância de estudar no exterior para a formação de um músico brasileiro? Por quê? Como foi sua experiência?
Heitor Lotti – turma de 1989 – Como eu ja disse os profissionais competentes no Brasil são em número tão reduzido que apenas nos grandes centros (e com ressalvas) é possivel encontrá-los. Por outro lado o músico profissional precisa de uma “atmosfera” de inspiração o que no Brasil não existe, e ainda vai levar tempo para existir. Na Russia, por exemplo, é possivel encontrar excelentes orquestras ou grupos de câmara em cada esquina. Em cada prédio, casa, condomínio existem músicos… todos eles com boa formação, boa “raça”. Salas de concertos com excelente programação existem aos milhares, incluindo pequenas cidades, desconhecidas da maioria. Concertos acontecem também em museus, e a quantidade de músicos brilhantes que o mundo sequer conhece é assustadora. É a “isso” que chamo de atmosfera inspiradora.
Minha experiência começou entrando no alojamento dos estudantes do Conservatório de Moscou. Eu poderia jurar que por detras de cada porta havia um CD tocando… mas não era. Eram adolescentes recém entrados na juventude estudando. Eu jamais ouvira nada semelhante muito menos em tal quantidade.
 
Vanessa Pasquini De Rose Ghilardi (ex-santa) –  Qual foi o evento mais importante de sua carreira até hoje?
Heitor Lotti – turma de 1989 – Alguns. Meu primeiro concerto como solista de orquestra, em 1989 (Sinfônica de Campinas), meu embarque para Moscou em 1990, minha participação como único violinista brasileiro no festival dos 500 anos da descoberta da América, em Novossibirsk, na Siberia, e Leningrado; meu exame de admissão no Conservatório de Moscou, em 1994; num concerto que dei em Santa Barbara d’Oeste (SP) quando me emocionei, e chorei, durante minha própria execução do “Trillo do diabo”, de Tartini, em 1995 (concerto organizado por meu pai); meu primeiro Concurso Internacional em 1996, em Beogrado, na antiga Yugoslavia… e pra falar de dias atuais, em 2010, em Campos do Jordão, quando tocamos com a OSESP a Sinfonia Alpina, de Strauss, sob a regência de Frank Shipway.

Compartilhar notícia: Facebook Twitter Pinterest Google Plus StumbleUpon Reddit RSS Email

Leave a Comment