Sentimentos Humanos: origem e sentidos


FLÁVIO DI GIORGI por Alfredo Bosi
 
Falar de Flávio Di Giorgi não é nada fácil. Tudo nele era excepcional e continua sendo excepcional no coração e na memória dos que o conheceram de perto.   Foi uma pessoa extraordinária em qualquer das dimensões pelas quais o lembrarmos.
A sua erudição não conhecia limites. Ele me confessou, certa vez, que na adolescência chegava a pensar diretamente em Latim! O seu professor de alemão admirava-se da desenvoltura com que lia Hegel no original. Ficou matéria de folclore a alusão à sua tese de doutorado sobre o poema de Lucrécio, De Rerum Natura. A tese já estava quase pronta quando ele a perdeu em circunstâncias até hoje mal esclarecidas. Se alguém a encontrar, restitua-a à família, sua legítima herdeira. Quantas passagens de Virgílio e de Horácio ele recitava com aquela sua voz clara, vibrante, ressoante, que o tempo e as enfermidades foram tornando cada vez mais emotiva!
O seu gosto pela poesia não se confinava ao mundo dos clássicos, mas se estendia aos grandes poetas modernos. Ouvi-lo declamar Baudelaire, García Lorca, Bandeira ou Drummond era um privilégio. Memória poética que Maria Edith partilhava com a mesma sensibilidade.
Mas não se tratava de amadorismo individualista. Flávio, sendo acima de tudo um grande mestre, amava o ensino, acreditava na presença magnética da voz, da viva voz, com que se comunicou a vida toda com os seus alunos. Estes nos dão testemunhos de sua influência profunda, não só intelectual, mas sobretudo ética.
Não precisarei falar de Flávio cristão aberto e engajado na opção pelos pobres que selou a orientação progressista da Igreja desde os anos 60. Está aqui D. Angélico que poderá testemunhar melhor do que eu o empenho de Flávio na construção do Reino de Justiça e Amor. Lembro apenas o companheiro das reuniões da Comissão Justiça e Paz na sua fase de Educação para os Direitos Humanos. Lembro as suas intervenções brilhantes nos encontros da Associação de Educadores Cristãos onde aprofundava as idéias e os valores do MétodoPauloFreire com quem tinha tantas afinidades.
Sempre se lamentou que Flávio não escrevesse o que dizia tão bem. Esse Sócrates precisaria ter um Platão que recolhesse amorosamente a sua fala de mestre. Beatriz, sua filha, começou a fazer esse trabalho, que todos gostaríamos de ler. De todo modo, o pouco que deixou é inestimável. Há dias, remexendo velhos papéis, encontrei um artigo seu, breve, mas transbordante de intuições originais.
O texto intitula-se “O educador e a opção pelos pobres: consciência crítica”. Logo nas primeiras linhas reencontramos aquele Flávio que tinha paixão pela origem das palavras, paixão que o levava às mais surpreendentes descobertas.  Ele o fazia de modo lúdico, mas era um jogo sério. Quantas vezes ele nos advertia que a palavra liturgia, vinda do grego, significava culto público, feito pelo povo e para o povo. No caso daquele artigo, o olhar voltava-se para a palavra competente, que em geral soa como um atributo frio, meio burocrático… Mas não é que Flávio decompôs o vocábulo e descobriu, só ele mesmo, que o tema, pet, de petente, significava em latim aquele que busca e que pede respostas, e que o prefixo con, de com-petente, denota estar junto. Então competente não é o que já sabe tudo, mas, ao contrário, o que busca a verdade em diálogo com os outros. E a partir daí se ilumina a missão do educador, o que procura junto aos alunos entender as pessoas e as coisas.
Desejo terminar imaginando Flávio escrevendo na lousa com sua bela caligrafia as etimologias de todas as palavras da nossa língua. Quero revê-lo roçando a borda do quadro negro com seu paletó polvilhado de giz. Essa imagem nos ficará gravada para sempre.
Mas peço licença para não falar do amigo e do irmão. Não teria palavras. Tudo agora é saudade, muita saudade.

 

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